Os 30 Dias Druídicos: Terra e Natureza

 30 Dias Druídicos: Dia 3 - Terra e Natureza
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Foto de Vitória Matos - Pexels

Eu narrei minha história, de como cheguei ao Druidismo no Dia 1 desta jornada. Contei sobre como eu não me encaixava nas religiosidades vigentes, justamente porque não conseguia conceber uma narrativa de sofrimento como razão cósmica de algo. Falei de quando eu era criança e amava a natureza, mas não conseguia ver as religiosidades apresentadas a mim como algo ao qual eu pertencia.

No texto anterior, falo da Cosmologia, em uma provocação ao leitor para não limitar sua visão a apenas enxergar a relação entre Deuses e Natureza através dos mitos existentes (ou fragmentos sobreviventes), mas também por meio de uma conexão ancestral com a natureza no agora, sem ficar preso ao fato de os celtas não possuírem um aparente mito da criação. Os mitos que temos remontam à união entre homem, paisagem e divindades — seres que habitam a natureza — sem necessariamente apontarem um criador ou denotarem uma ótica criacionista tão arraigada como no atual pensamento espiritual do Ocidente. Esses mitos mencionados no Dia 2 apontam lugares sagrados nos montes, rios, fontes, lagos, colinas verdejantes etc. Deles elucidamos uma cosmologia simples, com enfoque no elo entre a Terra e seus seres sagrados.

Dito isto, vamos ao fato de que muitos definem o Druidismo atual como uma espiritualidade da Terra e da Natureza, o que tenho por verdadeiro. Temos práticas devocionais, orações e meditações, mas, de fato, não nos deveria escapar que o vivenciar do aqui e agora faz parte de nosso culto. O aterramento, prática presente em diversas sendas esotéricas, jamais deveria ser mero detalhe na prática druídica, uma vez que habitamos um planeta que consideramos sagrado, repleto de paisagens vividas e experienciadas por nossos ancestrais. Aterrar-se pode não ser apenas uma parte do nosso caminho. O aterramento pode definir nossa essência.

O sagrado está presente nas rochas, no solo, nas plantas de todas as dimensões e também nos animais. Nas águas e nos seres que as habitam. No céu e nas vidas que nele sobrevoam. Nas nuvens, nas estrelas, no Sol e na Lua. Na ciência que respeitosamente estuda. Contemplar, aqui, não é meramente abstrair. Abstração é prática de muitas sendas. Nosso desafio está em mergulharmos em algo até desvendar uma visão profunda nele, enxergando o invisível nele.

Enquanto outras religiões se desconectaram da expressão material, colocando a matéria como profana, pecaminosa e condenada, os celtas e outros povos ancestrais pareciam compreender o sagrado na Natureza, no espírito, na forma. Não podemos pensar que os antigos filid, os vates, eram meros supersticiosos na manipulação de oráculos e plantas. Eram pessoas que, em sua época, analisavam causa e efeito nos elementos naturais.

O uso das ervas não envolveria certo estudo, ainda que na Antiguidade? Se analisarmos os curandeiros nativos e originários do Brasil, que executam suas atividades com sucesso, perceberemos que sua crença não é meramente confundível com superstições. Eles contemplam causa e efeito nas ervas e nas plantas, em uma experiência vívida com o bioma onde vivem. Aplicam seus tratamentos em doses corretas, coletadas em lunações apropriadas, em um trabalho tradicional de observação. Cada povo tradicional e originário do mundo carrega em si algo de uma ciência própria, ainda que não sob dogmas academicistas — pois o academicismo é uma construção humana ocidental.

É importante não distorcer o que elucido aqui: as artes váticas do Druidismo atual jamais devem se render a uma superstição sem crítica. Não negamos a ciência, porque a ciência contempla, sim, a natureza. Druidas, Vates e Bardos são contempladores das ciências em sua completude, podendo ser estudiosos das ciências naturais, sociais, exatas e humanas.

Não temos compreendido os Druidas da Antiguidade como sábios e filósofos, ainda que pela ótica de quem escreveu sobre eles naquele período? Em sua essência, eles não eram negacionistas quanto à ciência existente em sua época. Apenas compreendemos a ciência com abrangência, considerando os saberes dos povos tradicionais — saberes que, muitas vezes, foram apropriados por cientistas ocidentais capitalizados, sem o devido crédito, sendo incorporados a uma lógica amplamente explorada pela indústria farmacêutica, por exemplo.

Neste livre pensar sobre Terra e Natureza, aliado à força espiritual de uma religiosidade que venera Deidades e seres ancestrais que habitam o Natural, compreendemos que a ciência pode, portanto, caminhar junto daquilo que consideramos nossa alma. Uma vacina, por exemplo, pode carregar uma bênção ancestral. O que é a tão valorizada bibliografia, ou a fundamentação científica, senão algo semelhante à ancestralidade? Ao estudar um assunto, recorremos àqueles que antes de nós o trataram. Não nascemos de nós mesmos, nem nossas ideias surgem sozinhas no vazio do ego. Tudo tem uma origem, ainda que incriada. Para os povos ancestrais, a linhagem é sagrada — assim como a referência bibliográfica é essencial em projetos acadêmicos, pois constitui a linhagem do projeto.

Todavia, ainda que conectados à ciência, não negamos a alma. A Harmonia Ancestral afirmada pelos mitos antigos, ainda que resgatados, permanece viva. Existe alma na árvore, na pedra, nas águas, nos seres. Nada na matéria está condenado, pois a matéria é expressão da alma. Nada é meramente recurso. Sinto-me à vontade para contestar a ciência, assim como a religião é contestável quando pratica o extremismo. Uma ciência vendida ao capital selvagem é, sim, criticável. É criticável um modo de fazer ciência que enxerga a natureza e seus biomas como meros recursos naturais.

O mar, os peixes, os rios, as serras, as árvores, as plantas, a caatinga, o pantanal, as florestas, a Mata Atlântica e os biomas, quando vistos por essa ótica, são entregues à sociedade do consumo como comida, remédio, casa, móveis, imóveis e produtos descartáveis, formando lixões que poluem a mata e enchem as águas de microplástico.

Valorizamos a visão científica fundamentada que enxerga as relações ecológicas de causa e efeito que ameaçam o clima do planeta. Vivenciamos um evento político mundial que tratará do ponto de não retorno ao qual a natureza tem chegado: a COP 30, que ocorrerá em Belém do Pará, em solo brasileiro, entre 10 e 21 de novembro de 2025. Apesar da participação de autoridades sérias e cientistas comprometidos com a defesa do meio ambiente, bem como da representação de povos nativos e do protagonismo dos povos originários, haverá também a presença de mineradoras, representantes do agronegócio e indústrias de energia, que dificilmente escapam ao lobby pela exploração de recursos. Essa ciência, com tal viés, será conduzida a atender interesses econômicos — ainda que discursivamente legitimados por necessidades sociais — e não puramente ecológicos.

Os povos indígenas vivem na Terra em uma relação com a Natureza semelhante à dos povos que chamamos celtas, ou àquela que o Druidismo Atual busca resgatar espiritualmente. Para esses povos, a Terra é mais que lar ou casa: é Mãe. Fonte de água, moradia e alimento, mas não mera fornecedora de recursos ou capital comercializável. Ela é fruto de uma natureza abundante que sustenta a vida de todos os seus seres e não pode ser explorada a bel-prazer de alguns em detrimento de outros.

A Terra é fonte de vida, existência, beleza, sabedoria para a alma e ensino para o espírito. Uma entidade viva com a qual mantemos uma relação de respeito e honra. A produção por subsistência não extingue a natureza; já as indústrias predatórias promovem bens de consumo com obsolescência programada, gerando riqueza para elites enquanto produzem resíduos altamente poluentes. A colheita por subsistência jamais devastou rios, mares, montanhas ou biomas. Para os celtas, a colheita era fruto de uma relação com a soberania da Terra. A prosperidade era consequência de uma relação de honra. Destruir a casa dos Deuses era inadmissível.

No texto “A Natureza sussurra poesia. O eco de vida ou morte na voz dos antigos bardos”, apresentado no Orgulho Pagão de 2025, trato de Bress, rei entre os Tuatha de Dannan, que se tornou avarento e enfraqueceu seu povo. Ao se apropriar das riquezas em benefício próprio, rompeu o elo de abundância com a Terra. Foi deposto pelo bardo Cairpé, que atribuiu a pobreza ao seu verdadeiro causador: o rei. Destituído, Bress buscou alianças e trouxe guerra. Quantos homens da ciência, hoje, não se evidenciam como servos do capital, repetindo a lógica de Bress? Essas elites já não se veem como filhos da Terra. Abusam de seu corpo como abusadores da própria mãe. Não é à toa que o Ecofeminismo se mantém vivo e necessário. Muitos desses Bress do capital desejam protagonizar a COP 30 para manter combustíveis fósseis e monoculturas que não alimentam os povos locais. As sociedades enfraquecem, assim como os Tuatha no mito de Bress. A riqueza de poucos gera pobreza para muitos — e para a Terra.

Nossas oferendas de maçãs e flores à Mãe Terra jamais devem ser ironizadas. Elas simbolizam nossa devolutiva à Fonte Divina, que não é fornecedora de recursos, mas a Grande Alma que nos abriga. Mais que o rito simbólico, precisamos de uma entrega ética: atos cívicos, políticos e sociais em defesa do planeta, aliados às Deidades da Terra e a uma ciência comprometida com a vida.

Na visão gaélica irlandesa dos elementos, as rochas são os ossos, o solo é a carne, as plantas são a pele. As águas são o sangue, os ventos a respiração, a Lua a mente, o Sol a face, as nuvens e raios o cérebro, e o céu estrelado o topo da cabeça. Quando mineradoras exploram rochas como capital, arrancam os ossos da Mãe Terra. Quando destroem florestas, arrancam-lhe a pele. A erosão perfura sua carne. A poluição contamina seu sangue e encobre seu rosto. Não há exagero no choro dos povos originários quando suas terras e parentes são destruídos. Bancadas de poder ameaçam suas existências — expressões modernas de Bress. Onde está o bardo Cairpé que os destitua?

O Outro Mundo se relaciona com este. Dele ecoam vozes que clamam por justiça. O Sídhe, os Deuses, os ancestrais da Terra e do sangue pedem a ressacralização da Natureza. Tupinambás, que resistiram à escravidão, clamam junto a descendentes de africanos escravizados. Ancestrais do mundo inspiram cientistas éticos e bardos de cura para depor os reis Bress que tentam imperar. Se você escuta o Outro Mundo, talvez o bardo Cairpé esteja despertando em você a cura e a restauração do planeta.


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