A arte oracular: a voz que experencia a integração da consciência
![]() |
| Foto de Jonathan Borba - Pexels - Vista Costeira Da Calçada Dos Gigantes Na Irlanda Do Norte |
Diversas culturas do mundo recorrem a atividade do vaticínio para tentar desvendar, predizer ou absorver respostas para as diversas questões da vida. Apresentar menções históricas e culturais, sobre como eles foram aplicados durante a história do mundo seria uma árdua e acadêmica tarefa, mas, como desejo apenas divagar sobre o que sinto e o que já experenciei sobre o assunto, com o simples objetivo de dividir com meus seguidores, me abstenho por hora, de me obrigar a tal.
O que você pensa quando ouve falar em oráculos? Para muitos, a referência é o tarot, o jogo de búzios, as runas, o popularmente conhecido baralho cigano - também chamado de petit lenornand. Alguns jogos de oráculos são mais corriqueiros, outros integrados mais a uma espiritualidade prática e profunda. Na minha experiência pessoal, o Ogham, alfabeto gaélico irlandês adaptado a árvores, impactou a minha vida com muitas transformações, e confesso, que os impactos ainda continuam.
Desde o Ogham, idealizei o nome Oráculos da Natureza, tanto para este blog, como também para meu Instagram. Por ser praticante de Druidismo, uma religiosidade baseada na espiritualidade da natureza, busquei me inspirar nestes povos que pareciam intuir mensagens das nuvens do céu, do movimento dos ventos, do correr das águas e da paisagem. O que para muitos especialistas seria mera pareidolia - ato de ver rostos no céu, na mata, ou em outros objetos, um efeito cerebral com uma tendência de identificar formas de pessoas e animais, talvez um instinto natural para humanos que antigamente viviam em floresta e tinham que estar alerta por uma necessidade de defesa - para os celtas poderia era visto como a alma dos três reinos (terra, mar e céu) em plena comunicação. E se a ciência explica a pareidolia, o Druidismo moderno não quer nenhuma briga e oposição contra ela- para nós, o fato científico pode perfeitamente coabitar com a tradição ancestral enriquecendo-a. Se nosso cérebro encontra realmente um mecanismo para prever rostos e formas para autodefesa, e esse é um efeito natural, considero o também o oracular como tal: a natureza sempre fala, sempre nos alerta! O "rosto do perigo", ou mesmo das amenidades, em nuvens, ou folhas, ou nos padrões da água, que muitos atribuiriam a uma ilusão de pareidolia, pode se referir a momentos de outros tempos, como passado ou futuro. Agora, a situação do tempo oracular é muito curiosa: ela não remete a um tempo apenas do ponto de vista cartesiano.
Vamo pensar nos arcanos maiores do tarot, contudo, novamente evitarei qualquer mergulho técnico-histórico-bibliográfico, pois esta postagem é tão somente um convite ao simples contemplar os oráculos do ponto de vista natural. Considero formidável a associação de honradas ordens herméticas que associaram seu estudo a complexa noção cabalística - mas não vou mergulhar neste fato. Vamos a contemplação simplesmente imagética, assim como contemplamos sinais das pinturas rupestres deixadas por homens pré-históricos. Exemplo: o arcano 0, a carta do Louco, é um homem saltando um monte em plena aventura. Se você divagar por todas as cartas subsequentes, você verá uma história se desenvolvendo, em que o gênero humano varia: o mago, a sacerdotisa, o papa, e por aí vamos até chegarmos ao arcano 22, a carta do mundo. Cada carta nos traz sobre ousadias, realizações, aprendizados, conquistas, imprudências, desventuras, consequências, sentimentos e sentidos, resgates, ascensão, colheitas e julgamentos. É um verdadeiro desvelar imagético das experiências humanas, da natureza humana, inclusive, da natureza social. Eu tiro o chapéu ao tarot como ferramenta oracular em seus arcanos maiores ou menores, pelo seu poder de trazer a completas experiências da existência humana. Não o qualificaria de modo nenhum como um oráculo meramente artificial, mesmo apesar de toda ferramenta, até uma rústica colher, ser um artifício elaborado.
Claro que o tarot não é como as nuvens do céu, o correr das águas, ou a borra de um café, ou como os sagrados pássaros voando no céu, todavia, em todas as sua versões criadas, ele traz a vida humana prefigurada em arte. E a arte, apesar de ser artefato, tem o poder de traduzir/refletir forças da natureza, como fazem uma pintura, uma fotografia ou escultura. Simbolizar a vida humana em cartas foi uma grande sacada. Quem enxerga a arte como uma senda iniciática nos mistérios da natureza, e os artefatos como fios da conexão do artista com a realidade natural, por meio de representações(ainda que modificada a bel prazer do artista), está muito próximo da essência das coisas e do ato implícito de oracular sobre tudo. A natureza do artista inevitavelmente se imprime neste processo de produção de vida.
E a associação do alfabeto Ogham às árvores? Isto vem da Antiguidade de modo inerente? Não temos informação mítica-histórica-arqueológica suficiente para afirmar com a mão no fogo tal fato como plena verdade - algumas fids (letras) parecem que sim, todavia, como já me esquivei aqui em outros momentos, privarei novamente este humilde texto de mergulhar em tais profundezas, sem com isso, deixar de ser reflexivo sobre o tema. Para os Druidas, Vates, Bardos, ou devotos do paganismo céltico, a verdade não é vista como algo apenas assimilável do ponto de vista racional. A Awen ou Imbas, são palavras que definem (tem como definir?) a inspiração, o fogo na alma, ou mesmo a força que tudo conecta. Em grupo, com o Clã conhecido hoje como Caer Fidnemed An Síd, conduzido pela druidesa Rowena Ferch Aranrot, eu pude meditar por anos nos símbolos oghamicos e nas árvores associadas por gnose a eles. Com muita honra eu descrevo que este processo meditativo foi semelhante ao que acontece com arte, como descrevi logo acima: uma imersão em "uma senda iniciática nos mistérios da natureza". Eu sinto que toquei a alma das árvores a partir do interior do meu ser. E sinto que as árvores também impactaram o meu íntimo, não apenas com seu toque harmônico, mas com seu caos reconstrutor. A experiência não foi somente de iniciação oracular, foi também de profunda transformação pessoal, envolvendo logo de cara catarses, purificações, transmutações que mudaram e ainda têm mudado minha vida.
Após anos destas imersões, ao jogar as fids em um tabuleiro (quem sabe outro post falo destas possibilidades), eu não só vejo a chave oracular de mensagem para os meus consulentes. Eu enxergo o mistério vivo de cada árvore na intimidade que tive com cada uma delas. Talvez isto explique o fato de tantos excelentes oraculistas dizerem "nossa, estudei o Ogham, li suas correspondências, jogo, mas não enxergo nada". Eles honrados oraculistas têm excelente relação com os oráculos que utilizam por terem interiorizado sua arte na alma. Talvez, o que falta a descobrir é que as árvores do Ogham são, pelo menos ao meu ver, como entidades que falam, inspiram, que exigem uma entrega, ou seja, uma troca.
Não me obrigo a caminhar, passear sempre com um oráculo produzido em mãos, porque aprendi que toda a jornada da vida é em si mesma, com toda a Natureza existente, um oráculo. A cena de uma paisagem, uma fala cotidiana, uma forma em uma árvore, uma sensação sobre uma paisagem, a contemplação de corais que se formam no movimento do mar, ou suas lindas piscinas naturais, o canto dos pássaros, em si, são oraculos, verdadeira arte dos Deuses do Mar, da Terra e do Céu, uma composição feita através da livre e honrada expressão natural. Por isso celtas, nórdicos, povos indígenas, africanos, ritualizam diante da natureza. Você que me lê pode achar o fato muito romântico, muito poético, mas veja: bardos eram os grandes sacerdotes entre os povos que chamamos de celtas. O fato é que essa poesia é linda, mas esta beleza é verdadeira também nas paisagens frias, caóticas ou sombrias. O vulcão, o raio da tempestade também são contemplados no grande contexto de tudo. Há o que morre em favor da vida, existem os pontos de tensão, o que se destrói para a vida fluir e acontecer. Nas árvores do Ogham, encontrei severidade, revelações sobre aquilo que me faz corar, o choque contra o que precisava renascer em virtude, as faces de uma poesia tenebrosa também apareceram.
E quem disse que a sombra é a face do mal? A luz é necessária para conceder energia e também orientar nossas vistas, mas a sombra pode ter um aspecto acolhedor, que nos refresca. O quarto escuro é o lugar ideal para dormirmos. É na sombra do recôndito interior de um lar que somos levados a ver as cenas do sonho, produzidas pela luz interior. Se há cores no sonhar é porque há certa luz ali dentro de nós.
Se a dor aparece, ela sinaliza causas para prontamente atendermos e resolvermos. O prazer/satisfação pode ser um sinalizador daquilo que nos equilibra (claro que nem tudo dito aqui é absoluto. Há dor que não é sinal, e há prazer ilusório também). O desafio maior é interpretar com olhos da alma, é sair da inconsciência para a consciência verdadeira sobre tudo.
Então oracular é mais do que ler ou predizer o futuro em vaticínios. É experenciar profundamente a própria consciência e todas as outras consciências que nos permeia, tanto na distinção individuada de cada uma delas, como também na integração do todo. É um compartilhar da alma, eternamente jovem na arte do aprendizado interminável, tão infindável como o infinito.

Comentários
Postar um comentário