Os 30 dias druídicos: Por que Druidismo?
30 Dias Druídicos: Dia 1 - Por que Druidismo?
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| Foto: Adrielle Moretti |
É difícil dizer que eu tive um momento de decisão e do nada, eu disse: "eu escolho o Druidismo".
Eu vivi em uma família que se dizia católica, não tanto praticante. Eu estranhava, em minha infância, as imagens de um Cristo agonizante, sangrando, tal como eu via no altar de algumas tias. De menino, eu estranhava a necessidade de penitência, do arrependimento tão necessário como ouvia de parentes apegados a sua fé. Lembro da criança que eu era, incomodada com os momentos alegres, familiares, interrompidos para rezar ou orar.
Certa feita, eu ainda criança, disse a minha mãe algo como "não creio em Deus, não sei como ter fé". Minha mãe não foi nada recriminativa. Ela disse algo semelhante a "Deus é a natureza, você o vê nela. Olha as árvores, o céu, os pássaros, as flores." Naquele momento, o discurso materno me satisfez completamente. Para a criança que eu era, a religião apresentada pelas pessoas parecia doer, mas estas palavras da minha mãe soaram diferentes.
Na idade escolar, a disciplina que eu mais gostava era história - ainda é uma das minhas paixões eternas. Quando uma professora ensinava sobre a Grécia, tenho a lembrança de me perguntar: se estes povos acreditavam em muitos deuses, porque apenas um seria o mais certo de todos? Parecia que havia algo errado comigo quando eu pensava tais coisas.
Meu pai gostava de nos levar a rios, represas e lagos. Ele até hoje tem uma enorme paixão pela pesca, e vive atualmente a beira do rio Paraná, em Panorama-SP. Ele também adorava caminhar. Eu sempre morei em Jundiaí-SP, e na época da infância, eu morava no bairro Eloy Chaves, que tem uma estrada que leva a Serra do Japi, onde tem lindas cachoeiras. Frequentemente ele nos levava a estas cachoeiras belas, apesar de tão logo a prefeitura colocar cancelas que só permitem a chegada nestes lugares com autorização, para impedir degradação, segundo dizem... Eu aprendi, assim a amar a Serra do Japi
Das memórias deste período, recordo que tive amor por cristais, incensos e o misticismo, e amava a energia de uma antiga loja esotérica da cidade chamada Guizah, que ficava no chamado Centro das Artes, em Jundiaí, onde hoje está o Teatro Glória Rocha. Eu também comprei, de uma feira esotérica no Eloy Chaves, um elefante de resina, de cristal. Sim, eu tinha paixões por estas coisas na minha pré-adolescência, mas não sabia me definir nisto tudo.
Meus pais se desentenderam e se separaram algumas vezes com tentativas de volta. Mas quando eu me tornava um adulto, eles se separaram de vez. Porém, antes disso, na minha adolescência, em que tinha por volta dos 14 anos de idade, minha mãe, deprimida e separada, encontrou consolo numa igreja evangélica, onde teve certa hospitalidade. Como ela e minha irmã gostaram do lugar, também comecei a frequentar e até fui batizado. Apesar do encontro consolador para uma família em ruptura, logo via minha adolescência sendo direcionada, nem tanto por ordem da minha mãe, que encontrava consolo para sua depressão, mas por líderes rigorosos. Por orientação de pastores, me desfiz de artigos místicos. Eu vivia as tensões da situação de meus pais como uma pessoa muito jovem, o que me fez, neste momento, agir como uma pessoa muito entregue, que abraçou, então a religião, como não havia feito antes. Eu cheguei a ler a Bíblia pelo menos umas 6 vezes. E comecei a buscar artigos de teologia, porque eu não perdia o interesse que tinha por história - uma coisa que realmente me faz ir fundo nas coisas.
Pelos estudos de teologia, comecei a me deparar com disparidades entre as expressões fanáticas que me cercavam e as tradicionais igrejas protestantes, ao meu parecer, mais equilibradas que tudo o que eu via. Comecei ler Calvino, Lutero, ler sobre a Igreja Romana, Concílios... Ler sobre Império Romano pré e pós-cristão. Comecei a ver também certos interesses de religiosos que ambicionavam o poder, na política e no domínio social, e isso me assombrou. Por volta dos 22 anos, em uma situação de pré-surto com este ambiente religioso insalubre, e com os efeitos disso na minha vida pessoal, eu desisti e sim, decidi deixar aquela fé. Como não conseguia me definir ateu, por algum sentido interior, comecei a me declarar agnóstico, o que foi libertador naquele momento, pois vivi anos no sufoco. Repensando este tempo com lucidez, vejo que este rompimento foi como um grito de independência do menino que amava a natureza, que questionava as crenças vigentes ao deparar-se com povos antigos nas aulas de história. Sou levado a acreditar que, naqueles anos, tratei como uma espécie de diabo o jovem questionador em mim, que não aprovava a vida de sofrimento adotada por muitos religiosos. Não entenda, com isso que expresso uma inimizade, ou oposição, as pessoas sóbrias que se definem monoteístas - eu apenas não encontrava o meu pertenciment junto a elas.
Porém, algumas coisas começaram a me chamar a atenção. Admirava contemplar certas pessoas, como um professor de curso técnico, um entusiasta pela Astrologia, cuja a vida parecia dançar no ritimo de seus estudos e direcionamentos frente a eles.
Então eu tive uma irritação de na mão. Uma irritação insistente, que a feria. Passei em um dermatologista de Jundiaí, que disse para eu parar de usar sabonetes, ou qualquer outra substância, para ver se o sintoma desapareceria. Mas isto não aconteceu e o fato me incomodava. Eu pensei: vou procurar uma simpatia, uma magia natural, sei lá, vou ver se tem algo que ajuda. Em uma pesquisa online, encontrei o site Templo de Avalon e li sobre uma meditação com a lua minguante, ideal para banimentos, um texto da Rowena Ferch Aranrot.
Bom, eu fiz a meditação na Lua Minguante e simplesmente destinei a alergia da mão à Lua. Apontei a pele irritada para o astro em seu movimento de declínio, segundo me lembro. Não é que a alergia começou a desaparecer para nunca mais? Resultado mágico ou não, o fato é que, a partir desta sincronia, comecei a ler aquele site com afinco, mas com cautela, porque temia contatos religiosos e não queria nem de perto nada que me lembrasse o fanatismo que antes eu vivenciara. Aqueles conteúdos sobre os movimentos sazonais, a roda do ano e as meditações da lua começaram a me encantar. Descobria naquele conteúdo uma sintonia, uma harmonia que a minha alma parecia desejar. De imediato, eu não assimilava que tudo aquilo era Druidismo. Mas aqueles textos, sobre os povos que chamavam de celtas e que viveram na idade dos metais, seus mitos recontados com poesia, os rituais adaptados para praticantes modernos, e toda esta diversidade de conteúdos parecia ser algo a qual eu pertencia.
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| Pedra de Entrada de Newgrange - autor desconhecido |
E talvez neste ponto, antes de avançar na continuidade da minha história, é que eu encontro a resposta para a pergunta que é tema desta publicação: por que Druidismo? Por que o Druidismo me trouxe a essência do meu pertencimento, mesmo quando eu ainda não sabia que aqueles conteúdos eram em si, Druidismo. Ao meu ver, o site da amada Druidesa Rowena Ferch Aranrot nada tem de proselitista, nada fala sobre pregar uma religião - ele compartilha essas riquezas que podem servir de informação para quem quer saber apenas sobre cultura celta, ou se inspirar tão somente. Mas ele também traz estudo e rituais para quem almeja mergulhar nessa espiritualidade.
Em 2012, fiz contato no grupo de estudos Caer Siddi, no facebook, e fui recebido com muita hospitalidade pela Rowena, que em uma atitude inicial, me indicou textos, leituras e material.
Lembro que chegou o Beltane. Eu arranjei materiais para o ritual e fiz o meu primeiro ritual solitário junto à natureza, segundo uma sugestão que a Rowena adaptara dos ritos da ADF. Lembro que fiz um caminho pelo Parque da Cidade, em Jundiaí, para além da represa que abastece a cidade. Me embrenhei no Bosque, onde tinha um fluxo de água - ali é área de mananciais. Ritualizei o primeiro Beltane da minha vida frente a esta água. Sentia a forte presença, nas chamas que acendi em simples vela. Como foi inesquecível ritualizar sozinho à beira da natureza. Para mim, a minha iniciação como devoto se deu ali. Ali nasceu o meu amor por este meu caminho de alma. Novamente, ao pensar sobre isto, encontro a resposta da pergunta, que neste momento, parece me reabastecer. Pertencimento.
Dali em diante, eu procurei estar próximo a praticantes do Druidismo. Cheguei fazer parte de um clã, que hoje não mais existe, mas que era conduzido pelo Eldrich Nemer, então esposo da querida Alessa. Eles me inspiraram muito em uma espiritualidade devotada às forças da Natureza. Junto ao Gabriel Braga, Eldrich tinha um projeto ambiental maravilhoso, o Druidismo Nativo Ativista (D.N.A), uma proposta que hoje está adormecida, como a semente de um carvalho a brotar. O objetivo era o de conscientizar as pessoas em ações práticas sobre uma ecoespiritualidade que se coloca frente à sociedade, pelo plantio de árvores, pela defesa de biomas e um aculturamento de práticas ambientais integrada a Ancestralidade da Terra e da Tradição. O grupo do Eldrich e Alessa, o Tuatha de Cy, se desfez por motivos particulares, e o D.N.A adormeceu (é o que acontece com sementes, por um tempo em terra, até a planta nascer) - porém a centelha do D.N.A permanece viva em mim e na Rowena.
Logo mais eu teria um despertar de interesse pelo Ogham, oráculo das árvores, baseado no antigo alfabeto gaélico irlandês. E no grupo de estudos do Caer Siddi, no facebook, vez o outra, se fomentava a vontade de pessoas em aprender este oráculo, e eu era um dos fomentadores. Não é que junto a Rowena, e outras pessoas, não conseguimos dar um pontapé inicial em uma prática meditativa com as fids do Ogham? Nascia a Clareira dos Freixos. Disto surgiu, bem posteriormente, o Grupo Floresta de Manannán, que por questões que não vem ao caso, teve o seu fim. Mas aqueles que se comprometeram com a essência honrada do Druidismo e dos Estudos, continuaram no grupo Caer Fidneméd an Síd, até hoje.
Se houve algo que me impulsionou muitas transformações, e ainda impulsiona, foi o Ogham. A experiência com cada fid evocou para mim a força do sentido do Druidismo, como religiosidade conectada à essência das árvores. Tento sempe definir este aprendizado, que foi uma imersão profunda na alma. Desde então, compreendi que cada aprendizado encerrado nos coloca frente a um novo começo, portanto, a humildade do aprendiz se torna uma presença constante na jornada rumo à sabedoria da alma.
Por que, então, o Druidismo? Porque ele me devolveu o senso de pertencimento na grande jornada da vida, me reconectando ao caminho de alma que é o Bosque Sagrado.


Boa tarde, Henrique.
ResponderExcluirMaravilhosas vivências, Maravilhoso texto...
Obrigado Eric. Agradeço muito!
ExcluirOs 30 dias Drudicos foram fundamentais na minha jornada, então, seu texto mexeu duas vezes... Obrigado por compartilhar AWEM /|\
ResponderExcluirAgradeço muito a você por apreciar junto. Você tem seus 30 dias publicados? Vou amar ler. Eu demorei para começar a escrevê-los, meu querido.
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