A Natureza sussurra poesia. O eco de vida ou morte na voz dos antigos bardos.
Foto: Arina Krasnikova - Pexels
Texto de Apresentação para o Orgulho Pagão realizado em 18/10/2025*
Essa tarde, sem nos limitarmos a uma ordem cronológica, vamos mergulhar profundamente na ancestralidade de povos que hoje chamamos de celtas, mais definitivamente, nas narrativas da Ilha Esmeralda, a Irlanda, com atenção aos ecos, sussuros e canções que permeiam a história ancestral desta sagrada terra.
O nome gaélico da Irlanda é Eireann em sua forma genitiva de Éire. De acordo com o Livro das Invasões da Irlanda (Lebor Gabála Érenn) 1, um compêndio de manuscritos que narram a história mítica da ilha, o nome do território foi um pedido da soberana deusa Ériu aos conquistadores, vindos da Hispania, que puderam vencer em combate os moradores divinos, não sem antes uma canção poderosa, feita pelo druida Armegin, apaziguar a magia evocada pelo poderoso povo das Tuatha de Dannan. Os conquistadores atenderam com honra o pedido da deusa. Então, após a nomeação da Ilha, os Dannan partiram misteriosamente ao interior da terra, formando os reinos do Sídhe – sendo assim, eles ainda representam a soberania do território por meio da Natureza.
Esta é a Canção de Armegin, cantada quando os Dannan enviaram poderosa magia para defender-se da chegada dos hispânicos, filhos de Mil, quando navegavam sobre o mar.
“Eu sou o vento sobre o mar.
Eu sou a onda do oceano
Eu sou o rugido das ondas,
Eu sou o poderoso boi de combate,
Eu sou o gamo das sete batalhas,
Eu sou o falcão no penhasco,
Eu sou a gota de orvalho no raio de sol,
Eu sou o javali selvagem,
Eu sou o salmão da sabedoria,
Eu sou o lago da planície,
Eu sou a força da palavra,
Eu sou a lança certeira,
Eu sou o fogo que cria o pensamento.
Quem ilumina a pedra da montanha, se não eu?
Quem mostra o lugar onde o pôr-do-sol se deita?
Quem conhece as idades da lua, se não eu?
Quem chama o gado de volta para casa do rei?
Quem nomeia as cachoeiras, se não eu?
Quem é o Deus da forma, da batalha e das armas?
Quem sabe o segredo da fortaleza, se não eu?”
A Canção de Armegin, traduzida por Rowena Aranrot - Extraído do livro Brumas do Tempo2 - Todos os direitos reservados.
A canção, que honrou todas as forças da natureza que vorazmente acediam a rivalidade dos poderosos Dannan, fez com que a terra e o mar amenizasse, abrindo espaço para os hispânicos, filhos de Mil, aportarem na Ilha. Devido a isso, dananianos e milesianos se enfrentaram como homens reais, e com a vitória dos hispânicos, as Soberanas Rainhas de Tara cederam a terra mediante a benção de seus nomes: a terra passou a ser conhecida sob os nome de Fódla, Banba e Ériu. É do nome Ériu que deriva o nome Eireann, ou Éire, que ganha forma germânica conhecida por todos nós como Irlanda.
“Eu sou a força da palavra”, foi um dos versos bárdicos recitados por Armegin. A palavra e a canção entraram em profunda relação com a natureza em um momento tempestivo, ocasionando toda a possibilidade. A essência mítica dessa narrativa seria mesmo em favor da guerra, ou desdobra-se numa inspiração maior?
A relação natureza-canção-poesia parece ser uma máxima ancestral do que hoje chamamos de Druidismo, em que o fili (termo irlandês para bardo) desempenha um papel poderoso. Os contadores de história, Seanchai, eram bardos que mantinham viva as tradições que ligavam as tribos, as comunidades, a natureza por eles habitadas. Assim jovens respeitariam esta tradição, e protegeriam a sua terra. As mães, que naquela sociedade antiga cuidavam do lar, enquanto seus guerreiros batalhavam pelo sustento e segurança da todos, seriam a base do bom senso, e fortaleceriam a ligação dos seus jovens com este eco de elo natural, e ancestral, junto à tribo. A palavra de um homem seria um contrato digno, perante os deuses e a sociedade, o que resultaria em uma sociedade de confiança, sem marcas de criminalidade e desonras – a força destes homens também teria origem nas bases passadas por anciões sábios, que aprenderam com suas experiências de vida.
Vemos nisto semelhança com sociedades nativas do mundo, em que os anciões são ouvidos e ancestrais são honrados. Esses povos, como nossos povos originários, são aqueles que resistem contra a devastação dos seus rios, suas florestas, montanhas e paisagens naturais. Seus jovens defendem a tradição dos mais velhos. É deveras curioso compreender que as doutrinas religiosas, influenciadas pelo colonizador, a priori condenam o culto aos ancestrais, afinal, o antepassado é um vínculo com a terra. Ninguém comercializa a casa de seus ancestrais. Mesmo em sociedades europeias, vemos ruínas preservadas em memória a Grécia Antiga, Roma, ou mesmo as pirâmides no Egito. O mesmo se estende para vales, montanhas, florestas a que se há um legado histórico ancestral. Um mergulho na mitologia gaélica nos faz ver os rios, monumentos megalíticos como o Brug na Boinne (sítio arqueológico de Newgrange), a colina de Tara como lugares de preservação – mas que já sofreram depredação por esquecimento ancestral.
Muito antes de Armegin e os Milesianos chegarem a Ilha de Tara, Morrighan, deusa da soberania, que lutou com lealdade ao lado de Lugh Samildanach (Lugh de todas as habilidades), após cantar a prosperidade da terra de Tara, vislumbrou profeticamente o que seria os últimos dias da terra. Então ela profetizou:
“Não verei um mundo
que me seja querido:
Verão sem flores,
Gado sem leite,
Mulheres sem pudor,
Homens sem valor.
Conquistas sem rei...
Bosques sem mastro.
Mar sem produção...
Falsos julgamentos de velhos.
Falsos precedentes de advogados,
Todo homem um traidor.
Todo filho um saqueador.
O filho irá para a cama de seu pai,
O pai irá para a cama de seu filho.
Cada um cunhado de seu irmão.
Ele não procurará nenhuma mulher fora de sua casa...
Um tempo ruim,
Filho enganará seu pai,
Filha enganará...”
CATH MAIGE TUIRED, tradução inglesa por Elizabeth A. Gray3.
A destruição do mundo, nas palavras da deusa, revela a morte da sabedoria ancestral e, consequentemente, do meio ambiente. As crises naturais mostram uma sociedade de consumo que não preserva o mar, a serra ou as montanhas. Hoje, a sociedade cosmopolita não enxerga a natureza como um sagrado lar, o alimento como uma dádiva, a moradia como uma benção – pelo contrário, todas estas coisas são vistas como commodities, recursos vendáveis a lógica do consumo. A terra é vista como um bem capitalizado.
Sem respeito às tradições, jovens poluem as águas do mar e as praias, vistos apenas como unidades de lazer. As famílias não transmitem mais um legado da alma, conectado ao saber dos antigos, sejam eles ancestrais do sangue, da terra ou tradição. As famílias exigem dos filhos uma formação para produzirem, lucrarem, concorrerem, serem alguém na vida – enquanto ancestrais, sejam eles celtas, ou indígenas, ou qualquer outra etnia que sobreviva, já reconhecem nas crianças que nascem alguém que vem ao mundo com grande propósito na teia da vida. Quantas famílias medem seus membros por uma moralidade consumista, por valores colonialistas. Reduzem as mulheres, exaltam apenas quem vive o alto status quo, mas não valorizam a diversidade que existe em casa. Os homens, ou grandes homens/grandes mulheres de negócio fazem jogos com a vida, com os negócios, com a política, comprometendo direitos ancestrais, exercendo gestão ou votando em quem apoia o desmatamento, a derrubada de florestas, ferindo direitos de povos ancestrais, como os povos indígenas, favorecendo industrias e exploradores da terra que não estão interessados em alimentar a sociedade, com equilíbrio junto á natureza (que não é recurso, nem fonte de consumo!). Homens sem palavra, mulheres sem pudor (não pense esse pudor como uma ótica conservadora, mas como o bom senso necessário a formação familiar) são a causa de uma sociedade repleta de violências. Velhos sem sabedoria, incapazes de orientar. Fazem os povos ancestrais morrer em seus territórios, ainda que resistam. Desastres naturais matam em curto e longo prazo.
Entretanto, os povos que ainda preservam o respeito à tradição dos jovens, o pudor que traz bom senso no lar, a palavra de honra dos homens, a sabedoria dos velhos, honrando seus ancestrais, não entregam suas terras, resistem, tentam sobreviver. Pois preservam a essência da vida.
Como noticiado recentemente no site do Agência Brasil 4, um estudo do Instituto Socioambiental (ISA), lançado em abril deste ano (2025) revelou que o grau de preservação ambiental das terras indígenas nos biomas Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal é 31,5% maior do que em outras áreas fora delas. Vale lembrar que tal citação, a nós praticantes de Druidismo é extremamente válida, pois temos o princípio da honra da Ancestralidade da Terra. Com isso, valorizamos os nossos povos originários, suas canções e legados ancestral.
A falta de elo de alma ancestral com a natureza, como Morrighan profetizou, nos aproxima do fim dos tempos. O respeito às tradições ancestrais teria evitado grande parte das violências e desastres naturais que tanto presenciamos.
A voz dos bardos pode resgatar a honra e a terra, evocando os elos poéticos entre alma humana e natureza, pode, em nós, pessoas de nascimento urbano, evocar nosso elo com as forças da natureza. O nativo em nós. Os olhos de bardo, ou de druida.
Mas a tragédia do mundo também pode vir da parte de bardos e governantes com interesses mesquinhos. Vamos conhecer a famosa história de Bres e seu bardo Crindenbel para falar disto.
Os Tuatha de Dannan conquistaram o reino de Tara, ao vencer os Fír Bolg, na primeira grande batalha de Maige Tuired, e Nuada, o rei vencedor, foi impedido de subir ao trono devido ter sua mão decepada. Então, de acordo com a narrativa da segunda batalha de Maige Tuired5, escolheram o jovem Bres, cujo o nome se traduz por “Belo”, para assumir o reinado. Acontece que Bres tinha por pai Elatha, um dos reis fomorianos, mas sua mãe era Ériu, das Tuatha de Dannan (por genealogia, não deve ser a mesma que dá o nome da Irlanda), que o gerou após um encontro mágico com o rei deste povo antigo. O belo jovem recebeu o próspero reino conquistado pelos Tuatha de Dannan e tornou-se um amante das riquezas – o que não seria problema algum se todos pudessem celebrar a abundância na terra.
Os dananianos, por saber de sua ancestralidade mestiça, acreditaram com isto que ele estabeleceria a paz e acordos benéficos com os fomorianos - povo que pode simbolizar o caos natural, mas nunca objetivamente o mal. Mas a atuação de Bres pareceu beneficiar apenas o fortalecimento dos Fomorian, o que levou os Tuatha de Dannan à decadência. Bres contava com ofício de um bardo satirista, Cridenbel, homem astuto que pegava pessoas em tabus os quais eram difíceis de se libertar. Um destes tabus surpreendeu o nobre Dagda, que trabalhava para Bres.
“Então, um dia, o Dagda estava na trincheira e viu o Mac Óc vindo em sua direção. 'Saudações a você, Dagda!', disse o Mac Óc. 'E a você também', disse o Dagda. 'O que o faz parecer tão mal?', perguntou ele. 'Tenho um bom motivo', disse ele. 'Todas as noites, Cridenbél, o satirista, exige de mim os três melhores pedaços da minha porção.”
Mesmo para os deuses, o tabu de um bardo era algo inviolável. Dagda todos os dias tinha que dar ao satirista as três maiores porções de seu alimento a Cridenbel. Era um decreto. O satirista tinha uma boca enorme, seu queixo estendia-se ao ventre. Ao devorar as porções diárias, deixava pouco alimento para um deus reconhecido como senhor da abundância, ou do caldeirão sagrado da abundância. Mas chegou o Mac Óc, o filho jovem do Dagda, que olhou a questão, buscando uma saída. Ele deu ao pai três grandes moedas de ouro, orientando ao pai misturar elas com a porção de alimento. Glutão, Cridenbel engoliu sua recompensa diária e, engasgou. Dagda foi acusado perante Bres por envenenamento, todavia, alegou perante o rei que o bardo só devorara aquilo que lhe foi determinado: as três maiores porções do dia – e naquele dia, as três moedas de ouro eram as maiores porções conquistadas. O rei não acreditou, mas constatou que realmente as moedas foram devoradas pelo bardo ao ordenar que lhe abrissem o ventre. O bom Deus, Dagda, ficou livre então de qualquer condenação.
O satirista de fato tinha poder e astúcia. Conquistou fartas porções e levou o Senhor da Abundância a uma situação de desnutrição. Todavia, em seu vício glutão, ele não escapou de consequências, morrendo pela própria sentença bárdica que recitou – o que revela que existe um lugar perigoso a senda bárdica. A riqueza conquistada pela exploração o matou por engasgamento. Que grande lição para quem tem o poder de abençoar ou amaldiçoar pela palavra. Quem amaldiçoa a bel prazer e interesse pode encontrar a morte por aquilo que considera um proveito. Bastou um olhar jovem e sapiente para quebrar a maldição sem desrespeitar o preceito mágico.
Morria então, uma das frentes corruptas do reino de Bres, o bardo glutão. Todavia, o rei continuou em sua atitude de avareza, subjugando todos os Dannan a servidão. Mesmo vivendo em uma terra rica e abundante, os Tuatha viviam como pobres, devido ao rei opressor, que entregava aos inimigos suas riquezas. Seria este mito uma luz ao que acontece nos dias de hoje em nossa terra?
Mas outro bardo chegou para abençoar o reino de Tara, sendo recebido pela corte de Bres. Ele vinha para abençoar a terra, com uma companhia de artistas. Mas Bres o tratou muito mal.
“[Cairpre] entrou numa casinha estreita, escura [...] e não havia nela nem lareira, nem móveis, nem roupa de cama. Três bolinhos lhe foram trazidos num pratinho — e estavam secos. No dia seguinte, levantou-se e não agradeceu. Enquanto atravessava o pátio, [Cairpre] disse:
Sem comida pronta num prato,
Sem leite de vaca no qual um bezerro cresce,
Sem a habitação de um homem após a escuridão,
Sem pagar uma companhia de contadores de histórias — que essa seja a condição de Bres[.]
A prosperidade de Bres não existe mais”.
O honrado bardo Cairpre espelhou, em seus versos, a atitude mesquinha daquele rei que causava a pobreza dos Dannan. Bres agora enxergava sua própria vergonha, sentindo o peso da sátira que libertava o povo. Veja que Cairpre não amaldiçoa a terra, as vacas, nem os Dannan. Ele é extremamente sábio no que diz. Ele reflete a pobreza da mesquinhez sofrida ao próprio autor, Bres, e com sua palavra, ele destitui o rei de toda a riqueza da terra de Tara. Então, Bres foi deposto pelos Dannan, pois a voz do bardo foi ouvida por todos. A tribo não aceitaria mais aquele reinado. Bres foi imediatamente cobrado pelo povo, ele deveria restituir sua riqueza. Bres pediu tempo para pagar. Mas, com este tempo, ele foi buscar ajuda dos fomorianos e trouxe então a segunda batalha de Maige Tuired, que terminou com a vitória de Lugh, um deus que reinou pelas suas excelentes habilidade sobre os Tuatha de Dannan.
Cairpre assim, afastou a pobreza da terra depondo o rei desleal. A terra abundante retornou ao domínio do povo que a habita. Voltamos, agora novamente, a canção de Armegin. “Eu sou a força da palavra”.
Diga, agora, consigo mesmo, “eu sou”. O que você encontra ao pronunciar isto? Sua essência, aquilo que vive como força em você. A essência do que se é, então, a força da palavra. Aliás, a poesia da canção de Armegin revela a essência de tudo o que podemos ser. O que difere Armegin, Morrighan, Mac Óc, Cairpre, de Crindenbel, é a virtude. O termo virtude etimologicamente vem do latim virtus, que pode significar força ou valor.
Eu sou a força da palavra. Eu devo ser a virtude, o poder da palavra. Portanto, eu (todos nós) sou honra, verdade, justiça. Eu sou lealdade, coragem, generosidade. Eu sou hospitalidade, força e perseverança. Eu sou o respeito à tradição ancestral. Eu sou o lar com bom senso e pudor. Eu sou um ser humano de palavra. Eu sou quem envelhece, adquirindo sabedoria em minhas ações.
Se todos invocarmos esta essência sagrada , em consonância com a canção de Armegin, então cumpriremos aquele velho legado em tríade do Druidismo:
“O Druida cura a si mesmo. Cura a comunidade. Cura o mundo.” E não toleraremos a essência de domínio corrupto sobre nós.
Referências bibliográficas
1.Macalister, R. A. S., & Carey, J. (1993). Lebor Gabála Érenn: The book of the taking of Ireland ([New ed.].). Irish Texts Society.
2.Ferch Aranrot, R. (2011). Brumas do Tempo: poesias, pensamentos e ritos druídicos (4ª ed., revisado 2020/2022) . Templo de Avalon – Caer Siddi. https://templodeavalon.com.br/produto/livro-brumas-do-tempo/
3. GRAY, Elizabeth A. Cath Maige Tuired. Tradução de Elizabeth A. Gray. Disponível em: https://people.umass.edu/sharris/in/handouts/Cath_Maige_Tuired.pdf. Acesso em: 13 out. 2025.
4. AGÊNCIA BRASIL. Preservação de biomas em terras indígenas é 31 % maior, diz ISA. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/meio-ambiente/noticia/2025-04/preservacao-de-biomas-em-terras-indigenas-e-31-maior-diz-isa. Acesso em: 13 out. 2025.
5.Gray, E. A. (Ed. & Trans.). (1982). Cath Maige Tuired: The Second Battle of Mag Tuired. University College Cork, CELT: Corpus of Electronic Texts. Retrieved October 13, 2025, from https://celt.ucc.ie/published/T300010.html

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