Os 30 dias druídicos: Cosmologia
30 Dias Druídicos: Dia 2 - Cosmologia
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De acordo com o dicionário Priberam da Língua Portuguesa, Cosmologia1 é a "Ciência das leis que regem o universo."Quando estudamos a mitologia de povos antigos, buscamos compreender como essas etnias buscavam definir a existência, tentando, de algum modo, interpretar como eles compreendiam sua realidade, a origem da vida, e como as coisas funcionavam na natureza.
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| Foto de Gabriel Grip - Pexels |
Uma breve explanação sobre os celtas e os druidas
O Druidismo moderno têm inspiração nos antigos Druidas2, que eram vistos para além de sacerdotes nos povos que hoje definimos como celtas. Digo "além de sacerdotes" porque autores antigos, como Diógenes Laércio (século III EC), Clemente de Alexandria (ca. 150-215 EC), entre outros, se referiam a eles como sábios (filósofos). Presentes entre as diversas sociedades nomeadas como célticas, eram homens que "dominavam técnicas mágicas e divinatórias", que arbitravam em questões legais, que atuavam como "professores e mantenedores da tradição" e transmitiam os seus ensinamentos de modo oral, em um longo treinamento. Eram de força política em sociedades como a gaulesa, por isso tão perseguidos pelo Império Romano.
Os celtas se expandiram na Europa, na primeira grande cultura da Idade do Ferro; a Cultura Hallstat, que ocorreu entre 800 e 450 AEC; e na segunda fase da Idade do Ferro, denominado período La Tène, entre 450 AEC e século I EC. Em um conceito atual e acadêmico, o termo celta vem das semelhanças linguística entre estes povos da Idade dos Metais. Suas características comuns são observadas por ciências como Arqueologia e Antropologia, como observado por João Fabhcún Gorm, no livro Bosque dos Druidas3. O autor ressalta grande amplitude da aplicação do termo celta, dizendo que os cronistas da Antiguidade "não se referiram diretamente aos irlandeses e britanos como keltoi, ou mesmo como galli". Os romanos, que combateram gauleses e britanos, "não misturaram todos no mesmo caldeirão, apesar de suas característias comuns, como a existência dos druidas", segundo o autor. Visto isto, devemos considerar a diversidade destes povos antes de destacar sua cosmologia.
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| Mapa Expansão dos Celtas - Fonte: Bosque dos Druidas - Volume I |
Uma diversidade de povos e etnias se escondem sob o manto do termo celta. Cultos e outros hábitos culturais, ao passo que tinham semelhanças, também tinham suas diferenças tribais. A partir disto, elaboramos a seguinte pergunta: há uma cosmologia única, suscinta, que defina a religiosidade dos celtas e como eles viam as leis que regiam o universo à sua volta?
Cosmologia Celta
Nada documenta historicamente um mito da criação dos celtas, ou de surgimento dos mundos em sua perspectiva na Antiguidade. De fato, chego pessoalmente a pensar se nossa busca por isto não tem interferência subjetiva do fato de sempre termo vividos em um mundo pós-cristão, permeado com perspectivas criacionistas. A tendência de buscar uma origem em tudo nos é culturalmente arraigada, mas podemos considerar isto de povos que viveram a Idade dos Metais? O que eles pensavam realmente sobre isto? A diversidade dos povos que são abrangidos pelo termo celta seria de um pensamento único sobre as leis que regem o universo? Conseguimos realmente restaurar este pensamento a partir de povos tão antigos, aos dias modernos? E o Druidismo atual nisso tudo?
Valho-me da fala do atual antropólogo Eduardo Viveiros de Castro em sua publicação O Nativo Relativo4:
"O antropólogo sempre diz, e portanto faz, outra coisa que o nativo, mesmo que pretenda não fazer mais que redizer ‘textualmente’ o discurso deste, ou que tente dialogar — noção duvidosa — com ele. Tal diferença é o efeito de conhecimento do discurso do antropólogo, a relação entre o sentido de seu discurso e o sentido do discurso do nativo"
Este escritor aborda sobre antropólogos acadêmicos que se sobrepõe à cultura dos povos investigados com suas próprias noções culturais e sua visão atual de mundo, sem permitir de verdade o nativo de, enquanto 'outrem', realizar uma troca de saberes por meio de uma relação social onde expressa sua visão em livre prespectiva! Nesta obra, ele cita diversos detalhes de tribos originárias, como por exemplo, as que consideram animais como seres humanos - o que para certos especialisas seria visto como alegoria, mas, na cultura própria desta tribo, é visto como uma realidade factual! Quando nativos dizem que a terra é sua mãe, não o fazem por alegoria, simbolismo, mas é porque ela realmente é mesmo a mãe que os sustenta, e não uma mera fonte de recursos naturais! Então, será que nós, enquanto druidistas, conseguimos ter o mesmo "olho dos celtas", como do ponto de vista deste "nativo" que viveu lá da Idade do Ferro?
Considerando a citação acima, busco tentar refletir sobre o olhar destes povos que tanto focalizamos! Eles compreendiam o mundo no viés de criação? Será que não andamos batendo na porta dos celtas com uma perspectiva criacionista, colocando a nossa visão sobre a deles?
Os mitos irlandeses, coletados a partir de manuscritos já medievais, unem heróis, deuses e seres sagrados à paisagem. Suas histórias heróicas inspiram uma conexão entre a terra e a soberania, evocando uma conexão forte entre o que compreendemos hoje como três reinos: Céus, Terra e Mar.
Quando mergulhamos nos Ciclos Mitológicos Irlandeses, desvendamos divindades e seres que habitam colinas, rios e lagos - que habitam locais geralmente chamados de Sídhe - de onde a interagem com humanos. Esses mitos contam que seres do outro mundo se relacionam com Cú Chulainn, Fionn Mac Cumhaill, entre outros heróis e soberanos.
O mito de Diarmuid e Grainne mostra esta interação entre Deuses e homens. Diarmiud era apadrinhado do Deus Oengus Mac Óg, e um dos guerreiros dos Fianna, grupo de heróis liderados pelo sábio Fionn Mac Cumhaill. Com idade avançada e sem esposa, Fionn desejou se casar novamente. Foi proposto a ele que se casasse com Grainne, filha do rei Cormac Mac Airt.
A jovem princesa não aceitou se casar com um homem mais velho que o próprio pai, e impôs um tabu mágico (geasa) sobre Diarmuid, que mesmo leal a Fionn, não pode escapar da astúcia da jovem, conduzindo ela a fuga. Diarmuid e Grainne se apaixonaram. O casal teve então grande ajuda de Oengus Mac Óg, que habitava o Brug na Boinne (identificado como o sítio arqueológico de New Grange), que os conduziu sobre proteção mágica, em uma trajetória repleta de lindas paisagens, descanso em dólmens e árvores do Ogham - como a sorveira, da qual Grainne desejou se alimentar de suas lindas bagas vermelhas.
Nesta saga, mesmo o sábio Fionn chegando perto, não pode alcançar o protegido de Oengus. Após inúmeros desafios desta história, o líder ancião dos honrados Fianna acabou por se reconciliar com Diarmuid (agora casado e pai dos filhos de Grainne) e, aparentemente, restauraram amizade. Mas havia um tabu, uma geasa sobre Diarmuid, desde que era uma criança: ele não poderia jamais enfrentar javali na mata! Mas, em uma caça, Fionn, Diarmuide outros companheiros, deram de encontro com o animal. Diarmuid acertou mortalmente a caça, mas foi ferido gravemente por sua presa, ficando entre a vida e a morte!
Fionn, que tinha o poder de curar qualquer pessoa ferida ou doente com um gole de água coletada por suas mãos mágicas, viu Diarmuid agonizante e foi até um rio buscar o auxílio que salvaria a vida do herói. Porém, ao se aproximar do ferido, relembrou das amarguras que vivera, pela disputa por Grainne, e deixou a água escorrer entre os dedos. Os guerreiros imploraram, então Fionn voltou a buscar mais água, mas novamente se entregou a aquele sentimento, repetindo o gesto de deixar a água escorrer, o que levou o seu próprio filho, Oisin, a insistir furiosamente com o pai pela vida do amigo! Fionn foi novamente, mas ao retornar com a água do rio, encontrou Diarmuid já morto.
Esta história possui algumas versões interessantes. Certa vez encontrei uma, (perdoem me não encontrar agora a referência) em que Oengus levou o corpo de Diarmuid a um rio, onde ressuscitava eventualmente o seu protegido adotivo, o que possibilitaria a amada Grainne de o reencontrar. Um final que seria consolador.
A história renderia uma ópera não é mesmo? Ela ilustra a relação intimista do herói com sua divindade protetora - um aliado divino que habitava naquela terra. Trata também sobre as questões naturais, sobre o amor, sobre os limites existentes mesmo na vida das pessoas mais honradas, sobre a liberdade dos amantes, além de evidenciar o poder feminino em suas escolhas afetivas, em uma Grainne que não se curva a um casamento imposto.
"MAS NÃO FOGE DA COSMOLOGIA, Homem!". De fato pareço fugir, mas não estou (risos). Temos inúmeras outras histórias, como o Cortejo de Étain, uma jovem que fugiu do Sídhe, encarnando como humana e foi buscada pelo deus Mídir quando já casada com um rei; a união entre Macha e Cruinniuc, em que a Deusa traída foi obrigada a disputar uma corrida com cavalos; entre outros mitos maravilhosos. Esses mitos revelam o elo estreito entre Deuses e humanos, uma relação que envolve os montes da Ilha da Irlanda, os rios, lagos e o próprio mar.
Leia também: Os 30 dias druídicos: Por que Druidismo?
Lyr é o mar. Mannanan é o Deus Navegante, rei das Ilhas, grande aliado dos Dannan. Lugh é a força das habilidades. Morrighan é a soberania, que se move nas batalhas junto aos homens que têm um compromisso com a terra. Ériu é a Deusa que deu o nome a Irlanda, assim como Banba e Fódla. Encontramos estes deuses na paisagem de Éireann (Irlanda). O Sol do inverno está no monte em que a deusa Grían habita, e o Sol do Verão, no monte que Áine mora - e bem pode ser visto como o corpo luminoso das duas.
Vislumbro uma religiosidade geográfica, territorial. Os Deuses Antigos são a potência ancestral da natureza, sejam eles Deuses nascidos de Deuses, ou Deidades que são potências ancestrais da própria e essencial expressão natural. Não consigo, em minha experiência pessoal, enxergar tudo o que há na natureza sendo como meras feituras, ou meras criatura. Em minha relação com o Natural, me sinto parte dele tal como ele tem origem na essência dos Deuses, ou corporifica sua essência divina.
Nós, os não-Deuses, somos originados na paisagem que é a manifestação corpórea dos Deuses. Há conexão com a terra, com as rochas, com as plantas e árvores, os animais, os rios, fontes de água, poços, lagos, cachoeiras, minas, montanhas, Sol, Lua, Estrelas... Não nos vejo como criaturas à parte, somos seres que brotaram do movimento deste fluir de vida originada. As mitologias que agora temos revelam o divino existente no que simplesmente é. Então o pouco que temos da mitologia, arqueologia, ou quaisquer vestígios ancestrais, nos conecta essencialmente ao que se é. Percebo os Deuses sempre existiram inerentes a tudo e independem das próprias mitologias.
Cultuamos aqueles que apenas são, na paisagem e em nosso interior, junto a nossos verdadeiros ancestrais.
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Referências
1- "cosmologia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2025, https://dicionario.priberam.org/cosmologia."
2 -Trecho inspirado no livro de vários autores Bosque dos Druidas: uma introdução ao Druidismo Brasileiro pelo CBDRC:volume1 - Capítulo 2: O que é Druidismo? - Autor do capítulo: Bellou̯esus Īsarnos. Clique aqui para saber como adquirir
3 - Trecho inspirado no livro de vários autores Bosque dos Druidas: uma introdução ao Druidismo Brasileiro pelo CBDRC:volume1 - Capítulo 1: Quem foram os celtas? - Autor do capítulo: João Fabhcún Gorm. Clique aqui para saber como adquirir
4 - Viveiros de Castro, E.. (2002). O nativo relativo. Mana, 8(1), 113–148. https://doi.org/10.1590/S0104-93132002000100005


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