Os 30 Dias Druídicos: Espaços Sagrados
30 Dias Druídicos: Dia 6 - Espaços Sagrados
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| Tibau do Sul - Rio Grande do Norte - Foto: Henrique Mathias |
Após uma pausa, e reflexão, estou de volta. Muitas reflexões e ponderações sobre o que tenho escrito, com ajuda de leitores acurados, críticos, e com boas reflexões.
Falar de espaço sagrado, em um contexto druídico, e remeter-se aos povos denominados sob o jargão celta não é fácil. Esses povos passaram por um processo de apagamento histórico cujo início antecede o advento do cristianismo no Império Romano. Atualmente, espaços de culto de são identificados por arqueólogos, bem como oferendas votivas. Não me estenderei bibliograficamente hoje aqui, embora tenho recomendado os dois volumes do livro Bosque dos Druidas, livro do CBDRC. Acho que tive uma grande preocupação em colocar bibliografias nos meus primeiros textos. E tenho grande desabafos sobre elas, que renderão a uma publicação extra a tempo oportuno. Me cobrem, porque o tempo tá corrido.
Vamos pensar em uma gnose moderna sobre a perspectiva de como traduzimos palavras como Nemeton, ou Nemed, que significam espaço sagrado, bosque sagrado ou mesmo podem ser entendidas como templo. Em uma prática moderna, o espaço sagrado pode representar o lugar em que dedicamos nossa devoção, seja em nosso lugar, em um ambiente natural, ou ainda, um lar. Considerando minhas próprias experiências rituais, vou listar o que já vi como possível.
Ritos públicos no lar: a casa toda, sala, ou meio ambiente como espaço sagrado.
Pré ritual - Oferenda aos Forasteiros
Os primeiros rituais clânicos de Druidismo que visitei foram no quintal de uma casa. Preparou-se uma fogueira com um altar central, posicionando-se elementos no espaço. Mas este tipo de rito pode ser feito em uma clareira, um bosque, um lugar junto à Natureza, ou mesmo templo dedidcado, ou espaço alugado ou privado. Realiza-se uma ampla defumação dos objetos, pessoas, e do espaço, das oferendas, com o objetivo de afastar miasmas e nocividades do ambiente, sejam físicas ou energéticas.
A rigor, estes ritos priorizam, antes do íncio, oferendas aos forasteiros (espíritos transeuntes que passam pela região), para que respeitem o culto que será realizado naquele espaço. É uma ação de gentileza e respeito aos seres diversos que passam, sem julgá-los pela índole, com claro pedido de que não interfiram no espaço ritual e nos participantes do rito. Isto não é, de modo algum, uma adoração a estes seres, mas sim, um ato de respeito solicitando também um respeito recípocro. Penso que isso funcione como uma sinalização importante nas diversas esferas espirituais, aos seres de todas as condições, para que não invadam um campo sagrado onde haverão intenções específicas. É uma forma de sinalizar antes de ser necessário um banimento (não que os rituais não realizarão seu devido banimento, todavia, se poupa o motivo da invasão). Daí em diante, imagino que se um espírito decidir invadir um rito com uma honraria destas, elesestará assumindo as consequências próprias perante a presença espiritual do Clã, dos seus Aliados espirituais, Ancestrais e Deuses. Por isso, este apaziguamento de forasteiros é o sucesso de rituais fora de casa, em espaços naturais, ou mesmo num rito clânico no lar, pois sinalizam aos seres um aviso de respeito, e também respeita as diversas ancestralidades presentes em nosso território. E a energia de oferenda, geralmente um fruto da terra ou bebida, é um símbolo deste pedido de respeito.
Entrando no rito
Após isto, presta-se honra aos espíritos sagrados do lugar, que estão na terra, nas águas, no espaço natural, na casa. O fogo das velas, da fogueira, é aceso. Uma honraria então é feita a Mãe terra e aos ancestrais da terra, do sangue e da tradição espiritual druídica do grupo/clã/ordem. Então, no rito irlandês, alguns chamam a força (ventos) das 4 províncias da Irlanda, para proteger e guardar o rito. Isso pode ser adaptado de acordo com a tradição do Clã. Declara-se, então, o propósito do ritual, que pode ser a celebração de um dos Festivais, pode ser um culto a determinada deidade, ou outro motivo. Esta declaração é importante, pois delimita o foco central da ação ritual. Então se convida a divindade, ou divindades ritualizadas, para participar. Meditações, músicas, orações são feitas. Oferendas, bençãos e pedidos. Banimentos de situações podem serem feitos na chama, ou pedidos de bençãos. Perto do fim, um oraculo, abençoado na energia do rito, pode ser tirado, tanto para verificar a aceitação do rito.
Ao findar o rito, todos agradecem a presença das Deidades convidadas, dos Ancestrais Presentes, das forças protetoras (como os ventos das províncias), aos espiritos locais, e ao respeito dos forasteiros ou proteção guardiã. Existe um ato de despedida, pedindo ao Seres que retornem em paz, deixando a paz e suas bençãos. O encerramento é importante, junto ao pedido de fechamento de portais, para evitar um espaço inadequado entre mundos e seus problemas. Note que o espaço continua abençoado e sagrado, com as energias do rito, mas pode, após o encerramento, a ser reutilizado como parte do lar, e no caso da natureza, pode ser deixado em paz e ao seu curso honrado.
Lar e altares
Acima, falei do espaço sagrado ritual, dentro de uma perspectiva resumida e muito genérica. Druidas consideram toda a natureza como sagrada, todavia, o Espaço sagrado é um lugar dedicado, onde você realizará atos votivos, orações, louvações, adoração, meditação, conexão com o Divino. Todo o seu lar é um espaço sagrado para você, e deve estar devidamente abençoado, com ações de segurança, como defumação, oferenda pela sacralização do lar, etc. A casa que se habita é o seu lar, não pode ter espíritos invasores, não pode ter miasmas acumulados, por mais que a formação destes é natural. A limpeza higiênica do lar deve ser considerada um ato sagrado. E quanto às divindades, você não precisa dispor de um espaço enorme para tentar reconstruir um Nemeton similar aos achados arqueológicos. Embora não há registros sobre altares domésticos dos povos que chamamos celtas, a prática atual incentiva a construção de altares. Um espaço físico onde você pode alocar objetos rituais, imagens de deidades, fotos de antepassados. Tudo isso varia muito do seu espaço, das pessoas que convive, entre outra diversidade de fatores.
Fui orientado por minha druidesa a alocar coisas concernentes ao Céu no Centro do Altar, à Terra, ao Leste e ao mar, ao Oeste. Ao Sul podemos deixar instrumentos de som, ao norte, punhais consagrados, cajados ou outros instrumentos de autoridade. Mas não é obrigatório construir um altar a esses moldes, nem um único altar. Pela experiência, pude notar energias que se harmonizam, outras que se repelem, não por serem ruins, mas por serem elementos de natureza diversa. Usar o pêndulo com habilidade pode ser de grande utilidade na configuração do altar.
O importante é separar lugares limpos, de honra, de respeito. E manter eles frequentemente higienizados. Vale se desculpar quando a falha na limpeza acontecer, como gesto de cuidado e respeito.
Visitas à Natureza
Toda a natureza é sagrada. E tem ancestral. E nem sempre este ancestral é humano.
Há árvores ancestrais, animais ancestrais, seres feéricos ou outros encantados.
A vida das águas, da mata, dos animais encarnados também carrega sagrada consciência.
Não se entra na natureza sem ao menos pedir licença. Se você não tiver nada em mãos para oferendar, ao visitar o mar, ou uma cachoeira (lembre-se que oferendas devem sempre serem biodegradáveis e não poluentes), entregue seu respeito, seu pedido de licença, sua reverência, sentimento de gratidão. Cuidado para não jogar não recicláveis, lixo, ou qualquer coisa na mata. Leve sempre um saco para levar quaisquer resíduos. Não deixe na natureza nenhuma cera de vela. Isso é respeito à natureza e a vida espiritual local. Tudo tem alma segundo o Druidismo.
Tome estes cuidados ao visitar o mar, a Serra, as Cachoeiras, o Sertão, o Cerrado, o Mangue ou qualquer outro lugar sagrado. Você não precisa estabelecer longas orações ou um ritual para visitar, mas pedir licença ao entrar e sair, deixar gratidão no local é o mínimo. E se oferendar, oferende com sabedoria.
O Corpo e a Alma: espaços sagrados dentro de si
É muito comum nos preocuparmos com rituais externos, objetos, limpeza e organização ritual, e, de repente, do nada, esquecemos que o corpo é a casa da alma.
Banhos e autodefumação é bastante importante. Alimentação balanceada também. Alguns fazem jejuns, abstinências. Tudo deve ser discernido conforme o caso. Mas veja: mesmo o corpo pode ser tratado com uma relação de exterioridade.
Você andou a semana brigando, mentindo, cometeu injustiças. E o Druidismo é um caminho que preza virtudes, inclusive, vou deixar para vocês as nove virtudes básicas do caminho, que são: Verdade, Honra, Justiça, Lealdade, Coragem, Generosidade, Hospitalidade, Força, Perseverança. Estas virtudes são são apenas para você manifestar com membros do clã, da Ordem, do Grupo de Estudos, mas com todas as pessoas ao seu redor e consigo.
Não vou dar um recado de penitência ou arrependimento, como acontece no Cristianismo. Não trabalhamos com o perdão e arrependimento, mas com compensação, reparação. Então, retorne a praticar a sinceridade, a transparência, e a verdade nos seus caminhos. Respeite e recupere a honra em suas atitudes. O sagrado, que envolve Deuses, Ancestrais e uma diversidade de seres, pode perceber sua intenção reparadora, o que poderá realinhar você com as bençãos da compaixão. Mas não confunda isto com aquele perdão que cobre tudo, apenas porque você teve fé. Disso, declaro que cabe, conceituar o Espaço Sagrado em si por meio de uma primeira purificação interior em um realinhamento com as virtudes. Se você não pode cumprir um juramento, assuma as consequências e refaça o voto de modo responsável. Se você causou problemas, resolva. É uma espiritualidade séria, ainda que renascida na modernidade. É uma relação ancestral que envolve a natureza, isto é mais sério que nossa pequena vida aqui,
Trate o seu corpo, sua mente com respeito. Não adianta um rito de amor se o respeito não existe, e não existe verdadeiro amor sem o respeito. Não há como ter a virtude, a força viva da honra, se você não tiver em si verdade. Com verdade, você entende o que respeitar. Quando você conhece a verdade sobre uma pessoa, é possível honrá-la. Então a verdade interior é um caminho para a pureza da alma, e do desenvolvimento da honra. E sem honra, você não praticará a justiça, entende? As 9 virtudes são vinculadas em si. Falarei mais disso em ética. Não será possível você ter a 9ª virtude sem desenvolver a primeira.
A pureza do coração, da mente, a lucidez, a ética, é muito importante tanto como banhos de limpeza e defumações. A leitura, oração, meditação também te alinharão com as consciêncais sagradas. Estar atento a intuição é uma prática. Você não se desenvolverá bem no caminho se você perjorar seu corpo, sua mente sua alma. Se você se menosprezar. E também não irá bem ir pelo caminho da arrogância, tomando para si uma evidência que não lhe cabe. Moderação, equilíbrio são as palavras-chave.
O espaço sagrado interior envolve uma percepção de si mesmo. Claro que somos humanos em aprendizados, que erramos. Mas cabe toda esta questão. E aqui, só trago coisas das mais básicas.
A meditação abre o caminho para uma conexão mais íntima. Jornadas de devoção, individuais ou em grupo podem desenvolver sua intuição, sua visualização, sua segunda visão ou sentidos mais apurados. Mas não adianta você, após estas maravilhosas experiências, mergulhar em conteúdos infames, baixos, desonrosos. Druidismo, na era dos conteúdos digitais e não digitais envolve selecionar aquilo que respeita não só a Natureza externa, que tanto defendemos, mas a natureza do coração, da alma.
Ele ensina a selecionar e a sacralizar.
O corpo é um Espaço sagrado. Então o que você come? O que você faz com sua sexualidade? Como você desenvolve seu corpo?
A mente, as emoções, a vontade e o Self são seu espaço sagrado. O que você lê, seleciona, que atividades pratica, que conversas e amizades cultiva, que literaturas e práticas de consciência você busca?
O espírto é seu espaço sagrado: você tem ouvido suas meditações ou intuições?
Vale muito pensar nisto. Alinhar corpo, alma e ambiente seria um sucesso imenso no campo ritual.

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