Os 30 dias Druídicos: Elementos
30 Dias Druídicos: Dia 5 - Elementos
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Em uma concepção druídica, existimos em Três Reinos Sagrados, como já falado.
O Druidismo moderno, assim como outras religiosidades contemporâneas, também busca explicar a realidade em sua composição, assim como os físicos estudam o átomo, para compreender a realidade a partir dos fenômenos.
Algumas vertentes druídicas atuais compartilham com outras religiosidades questões herméticas, herdadas da Grécia, como o estudo dos 4 elementos: terra, água, fogo e ar. Me isento aqui de mergulhar profundamente nos autores e Ordens que trabalham o hermetismo. São conhecimentos fortes, conectivos com o natural e com aprendizados de magia desenvolvidos em sendas por onde não trilhei, mas, não é fácil criar uma referência entre celtas e hermetismo, por mais que muitos tentem fazê-lo. Na prática e gnose atual, quem cruza este caminho consegue desenvolver efetivos trabalhos - mas considero que os celtas tinham a própria perspectiva.
Ao me deparar com os Tuatha de Dannan e o que temos de sua mitologia, vemos que eles possuem habilidades como ferraria, que trabalha os poderes do fogo, da água, e da terra, além de instrumentos mágicos que atraem os olhares que atualmente são fascinados por alquimia, como no caso dos tesouros míticos da Irlanda - todavia, que referência histórica e arqueólogica pode fundamentar que os povos célticos realmente tinham contato ou influência hermética? Contudo, acho viável o aprendizado de hermetismo para praticantes atuais, visto que pouco sobreviveu dos celtas que viviam na Idade dos Metais, portanto, trabalhavam isso à sua maneira.
Embora não exista uma fonte da Idade Antiga que remeta os gaélicos uma filosofia exata sobre a interpretação dos elementos (em gaélico, dúile), podemos considerar o intercurso interpretativo aplicado por druidas contemporâneos como Searles O’Dubhain, ou Luke Eastwood, ao olharem para os mitos, folclore e mesmo documentos medievais. Para Eastwood 1, o paganismo céltico continuou sendo práticado junto ao cristianismo até o século VIII, e mesmo com a cristianização, as características da religiosidade destes povos sobreviviam, mesmo com certa distorção, ao advento da Igreja.
A oração St. Patrick's Breastplate (Couraça de São Patrício), disponível em um manuscrito do século XI chamado Liber Hymnorum2 , e que pode ser uma inclusão do século VIII, evoca em um de seus trechos os elementos naturais e pode trazer um possível resquício da ancestralidade gaélica:
St. Patrick's Breastplate (Couraça de São Patrício). Também nomeada como The deer's Cry3
No Irlandês antigo intitulada como "Féth Fíada"
"Eu me levanto hoje
pela força do céu,
pela luz do sol,
pelo brilho da lua,
pelo esplendor do fogo
pela rapidez do relâmpago,
pelo caminho do vento,
pela profundidade do mar,
pela firmeza da terra,
pela solidez da pedra."
Embora a oração evoque os elementos naturais como força protetiva, ela não indica necessariamente a existência de uma crença ou filosofia druídica instituída a partir dos elementos, todavia, apresenta uma peculiaridade da consciência irlandesa que pode remeter a tempos mais antigos, segundo a opinião druídica atual. Nas história mítica da Irlanda, temos a Canção de Armegin, em que se chamou os poderes da paisagem da Ilha que situava o reino de Tara:
“Eu sou o vento sobre o mar.
Eu sou a onda do oceano
Eu sou o rugido das ondas,
Eu sou o poderoso boi de combate,
Eu sou o gamo das sete batalhas,
Eu sou o falcão no penhasco,
Eu sou a gota de orvalho no raio de sol,
Eu sou o javali selvagem,
Eu sou o salmão da sabedoria,
Eu sou o lago da planície,
Eu sou a força da palavra,
Eu sou a lança certeira,
Eu sou o fogo que cria o pensamento.
Quem ilumina a pedra da montanha, se não eu?
Quem mostra o lugar onde o pôr-do-sol se deita?
Quem conhece as idades da lua, se não eu?
Quem chama o gado de volta para casa do rei?
Quem nomeia as cachoeiras, se não eu?
Quem é o Deus da forma, da batalha e das armas?
Quem sabe o segredo da fortaleza, se não eu?”
A Canção de Armegin4, traduzida por Rowena Aranrot - Extraído do livro Brumas do Tempo - Todos os direitos reservados.
A presença dos elementos, nos mitos, nas orações aos três reinos, como vimos no dia 4, parece inspirar uma conexão direta entre existência e componentes naturais, dando a ideia de um microcosmo em nós, que se reflete no todo, isto é, o macrocosmo. A partir da interpretação do druida Luke Eastwood, temos na natureza os 9 dúile da seguinte forma: Pedra (Cloch), Terra (Talamh), Vida Vegetal (Uaine), Mar (Muir), Vento (Gaeth), Lua (Gealach), Sol (Grian), Nuvem (Nel) e Céu (Neamh).
Isto estaria associado ao que compõe o nosso corpo. Os ossos (Cnaimh) relacionados à pedra, assim como a carne (Colaind) à terra, os cabelos/pêlos/pele (Gruaigh) à vida vegetal, o sangue (Fuil) ao mar, o fôlego (Anal) ao vento, a mente (Imradud) à Lua, a face (Drech) ao Sol, o cérebro (Menma) à nuvem e a cabeça (Ceann) ao Céu. Penso que, por meio dessa interpretação de druidas modernos, podemos bardicamente, ou vaticamente, evocar a conexão do que nos constitui com todo o cosmo em uma atitude sagrada. Uma magia, ou alquimia, que envolve todo nosso corpo em relação com a natureza completa.
No mito irlandês, da sepultura de seu irmão Miach, a deusa Airmid cataloga 365 ervas, das quais poderia curar qualquer pessoa. No mito galês, Blodewedd é a esposa composta a partir de plantas para Llew Llaw Gyffes. Seriam estes mitos pistas sobre uma herbologia antiga que poderiam se relacionar aos dúile, para a compreensão da constituição humana? Quem estuda herbologia com seriedade, sabe o que indicar para ossos, para o sangue, para o fígado, e também faz associações, a exemplo, de ervas solares, ervas lunares, entre outras.
Como dito, nada comprova que houve entre os celtas uma filosofia fundamentada dos elementos, semelhante ao que constitui o hermetismo herdado da Grécia, tão evocado por alquimistas, cabalistas e Ordens de magia. Todavia, o Druidismo renascido e moderno absorve dos mitos fragmentados, do folclore, dos resquícios sobreviventes, ainda que com as possíveis distorções do tempo e do distanciamento da antiga cultura, uma interpretação que nos inspira a constituir esta filosofia no agora!
Fortalecer os ossos relacionando eles as rochas. Abençoar os orgãos e a carne em conexão com o solo que pisamos ao chão. Despertar a saúde em nossa pele e pêlos, tal como as plantas realizam a fotossíntese e interferem na umidade do ar, controlando a troca de água. Vitalizar o movimento do nosso sangue, tal como o fluir do mar, dos rios, das fontes e poços sagrados. Tornar ativa nossa respiração, como vento, o ar, movendo-se em nossos pulmões, fortalecendo nossa consciência com meditação. Assim, renovar a nossa mente, como a Lua cíclica, movento verdadeiras transformações. Expressar a nossa personalidade com energia honrada, em nossa face, como o Sol reluzente que tudo aquece e nutre. Elevar a atividade de nosso cérebro, como as nuvens, em que as sinapses trazem os raios inspirativos. E assim, receptar no ser a inspiração dos Deuses, potências primordiais, pelas nossas cabeças, coroas da existência, onde o Céu abarca o Universo em sua vastidão. É reconsiderar o homem constituído da essencia elemental, é resgatar o homem paisagem.
Em minha experiência pessoal e atual, busco contemplar me no que vejo perante as paisagens. Um homem natural, feito de natureza. Ao andar perante uma cachoeira, um bosque, ou diante do mar, tento respeitosamente me conectar as pedras, ao solo, a vegetação, às águas, ao vento, a força lunar e solar incidente, ao Sol, e ao Céu. É como redescobrir o pertencimento ao todo. Pode ser curativo, ao menos para alma, que um dia, por construtos do ego, se desconectou, por socialmente aprender a viver como ser muito a parte da Natureza. Se o corpo reside na alma, ao abraçar a natureza, abraçamos almas ancestrais, abraçamos almas maiores que a nossa ou ao menos, desfrutamos de imensa integração.
Referências
1 - Eastwood L. Celtic Cosmology – An Introduction [Internet]. Wexford (IE): Luke Eastwood; 2013 [cited 2025 Dec 29]. Available from: https://www.lukeeastwood.com/cosmology.htm
2 - Clements A Ní B. The Breastplate of Saint Patrick — Thomas Kinsella and the Dolmen Press [Internet]. University of Notre Dame: Rare Books and Special Collections; 2022 Mar 14 [cited 2025 Dec 29]. Available from: https://sites.nd.edu/rbsc/the-breastplate-of-saint-patrick-thomas-kinsella-and-the-dolmen-press/
3 - Meyer K. Selections from Ancient Irish Poetry. London: Constable & Company Ltd; 1911. p. 25. Available from: https://archive.org/details/selectionsfroman00meyeuoft/page/24/mode/2up
4 - Ferch Aranrot, R. (2011). Brumas do Tempo: poesias, pensamentos e ritos druídicos (4ª ed., revisado 2020/2022) . Templo de Avalon – Caer Siddi. https://templodeavalon.com.br/produto/livro-brumas-do-tempo/

Maravilhoso texto, Henrique 👏🏻👏🏻👏🏻
ResponderExcluirObrigado Baba!
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